Diretor da CNEN alega divergência e se demite

O Estado de São Paulo – 06/11/1986 – Economia – página 33

 Diretor da CNEN alega divergência e se demite

Alegando falta de recursos e de independência da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), o diretor-executivo desse órgão, Xamuset Campello Bittencourt, pediu demissão de seu cargo, afirmando ontem discordar da orientação do geverno Sarney de não promover a imediata separação desse órgão em dois outros institutos, um dedicado apenas à segurança e outro destinado ao programa nuclear paralelo, ou à pesquisa.

Xamuset Bittencourt, engenheiro nuclear formado em Saclay, na França, por 19 anos trabalhou no setor nuclear, passando pela Nuclebrás, Furnas e CNEN. Nesta última, foi o encarregado da divisão de Radioproteção e Segurança, exercendo também o cargo de diretor-executivo e presidente interino do órgão. Sua saída teve enorme repercussão junto aos técnicos do setor nuclear, para quem ela representa apenas um dos aspectos de uma briga maior entre o Conselho de Segurança Nacional e os assessores do Ministérios das Minas e Energia.

Bittencourt alega que a não concretização da divisão da CNEN como estava previsto, assim que esse órgão foi transferido do Ministério das Minas e Energia para a Presidência da República, com a criação simultânea da Comissão Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Nuclear (programa paralelo) e da Comissão Nacional de Radioproteção e Segurança Nuclear foi o principal responsável pelo seu pedido irrevigável de demissão.

O pensamento do presidente da CNEN, Rex Nazaré Alves, externado em várias entrevistas ao Estado e JT, sempre foi contra a divisão da CNEN proposta pela comissão de alto nível de cientistas que reavaliou o programa nuclear. Nazaré Alves acha que não deveria se dividir o órgão agora para não haver dispersão de recursos financeiros e técnicos em dois outros órgãos autônomos e independentes. A seu ver, o programa paralelo é essencial para o País e está indo muito bem. “Em time que está ganhando não se mexe”, diz.

Xamuset Bittencourt pediu demissão dos cargos de confiança que ocupa, mas continua na CNEN como funcionário, à espera da aposentadoria. Êle não quis fazer qualquer outro comentário além da discordância contra a não separação do órgão e desmentiu formalmente quaiquer divergências quanto aos níveis fixados pela CNEN para a liberação do leite contaminado pela radiação de Chernobyl, bem como quanto aos problemas havidos nos últimos dias com a usina nuclear Angra I. Disse esperar ainda que o presidente Sarney promova a divisão dos órgãos, “única fórmula para o País ter maior segurança nuclear nas atividades que promove nesse setor”.


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