césio 137 - Contra o esquecimento

Correio Braziliense - 14/09/2007


Em Goiânia, manifestantes levam flores até a Rua 57, centro do desastre que afetou 6 mil pessoas

 


 

Hércules Barros
Da equipe do Correio

Há 20 anos, a vida de cerca de 6 mil pessoas em Goiânia foi selada pelo maior acidente radioativo do Brasil — e o maior com material nuclear em área urbana do mundo. Unidos pela dor, os afetados pela radiação se organizaram e realizaram, ontem, uma caminhada para lembrar a tragédia. A Associação das Vítimas do Césio 137 (Avcésio) organizou, no fim do dia, uma passeata da Câmara Municipal da capital goiana até a Rua 57, onde ocorreu o acidente, em 13 de setembro de 1987.

Durante cerca de 45 minutos, pessoas que tiveram contato direto com o césio ou vítimas indiretas do desastre, além de profissionais de segurança pública que trabalharam na descontaminação das áreas afetadas na época, carregaram velas e cantaram músicas como Rosa de Hiroshima, do poeta Vinícius de Moraes. As velas foram depositadas no centro do lote onde a cápsula foi aberta. Em seguida, um grupo de dança apresentou uma coreografia para homenagear os pelo menos 60 mortos no acidente. “É para que as vítimas não sejam esquecidas”, afirmou o ambientalista Guilherme Leonardi, coordenador da campanha de energia do Greenpeace, entidade que apoiou a manifestação.

Pela manhã, o grupo participou de uma série de palestras na Câmara com pesquisadores e representantes de associações de vítimas do césio 137. O encontro serviu para definir as principais reivindicações dos afetados pela radioatividade. “Tratamos principalmente da contaminação nas áreas afetadas, além da discriminação e da falta de assistência às vítimas”, afirmou o motorista Obesson Alves Ferreira, presidente da associação. Muitas famílias ainda lutam por indenizações. “O césio nos trouxe uma experiência que não queremos para o nosso futuro. A insegurança nuclear no Brasil é o que nos leva a pedir: césio nunca mais”, reforçou Odesson.

Até hoje, a tragédia de Goiânia é considerada o pior acidente radiológico em área urbana do mundo. No dia 13 de setembro de 1987, dois catadores encontraram uma peça de metal nas ruínas abandonadas do Instituto Goiano de Radioterapia. Alguns dias depois, a peça foi vendida para um ferro-velho e desmontada por Devair Alves Ferreira, que ficou fascinado com o que encontrou dentro do cilindro: um pó azul que brilhava no escuro, o césio 137.

Dados da associação dão conta de que 19 gramas de césio contaminaram, aproximadamente, 6 mil pessoas. Os afetados sofrem com problemas como câncer, alterações genéticas, seqüelas psicológicas e preconceito. A tragédia ainda deixou como herança cerca de 20 toneladas de material radioativo, armazenadas posteriormente em um depósito na cidade de Abadia de Goiás. “A segurança nuclear no Brasil é algo que o governo não tem capacidade de garantir e, mesmo assim, optou por investir na construção de Angra 3”, reclamou Ricardo Baitelo, coordenador da campanha de energias renováveis do Greenpeace.


Greenpeace protesta em frente à Cnen

Os 20 anos do drama vivido pelas vítimas do acidente radioativo com o Césio 137, em Goiânia (GO), também foram lembrados ontem durante protesto no Rio de Janeiro. A organização não-governamental Greenpeace aproveitou a data para realizar uma manifestação contrária ao uso da energia nuclear no Brasil. O ato, que interditou os portões de entrada da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, em Botafogo, Zona Sul da capital fluminense, acabou em empurra-empurra com a polícia.

O grupo formado por 20 ativistas ligados ao grupo ambientalista chegou ao local por volta das 10h, se prendeu com correntes e cadeados nos três portões que dão acesso ao prédio e instalou em frente à entrada principal uma placa com os dizeres “Memória Césio 137: 60 mortos, 6 mil vítimas e 20 anos de descaso. Brasil, o país da insegurança nuclear”. Os manifestantes impediram a entrada e saída de carros e pessoas. Até mesmo os funcionários da Cnen que quiseram deixar o órgão ficaram retidos.

O bloqueio só foi interrompido com a chegada da Polícia Militar quase duas horas depois. Sem conseguir dialogar com os ambientalistas, os policiais serraram as correntes e retiraram os manifestantes da frente do prédio à força. De acordo com integrantes do Greenpeace, a polícia usou sprays de pimenta para forçá-los a liberar os portões.

Desfeito o protesto, os manifestantes permaneceram em vigília encostados no muro da Cnen. “Só vamos sair daqui se formos removidos. Reivindicamos a não construção de Angra 3 e o fim do programa nuclear brasileiro”, afirmou Rebeca Lerer, uma das coordenadoras da campanha de energia do Greenpeace. A Associação das Vítimas do Césio 137 de Goiânia se juntou aos militantes da ONG para reclamar do descaso com os afetados pela tragédia radioativa na capital goiana. “As pessoas esqueceram do acidente. Eu me lembro disso todos os dias”, lamentou Obesson Júnior, 32 anos. Sobrinho do homem que comprou a cápsula de césio, Júnior tinha 12 anos quando foi contaminado, tendo de ficar internado 90 dias em tratamento e sem contato com a família.

Em nota à imprensa, a Cnen afirmou “compartilhar do mesmo sentimento de solidariedade manifestado por toda a sociedade em relação às vítimas do acidente”. A Cnen destacou também que faz “monitoramento periódico dos níveis de radioatividade” em Goiânia. Sobre as críticas dos ambientalistas quanto à segurança do uso de energia nuclear no Brasil, a comissão disse que “as normas de radioproteção estão de acordo com os padrões difundidos pela Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea)”, e que “a energia nuclear no Brasil não oferece riscos”.


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